domingo, maio 22, 2005

"Não me morras"

E um dia ela resolveu partir. Pegou nos poemas que me escreveu, no resto de vida que lhe deixei e foi...
Continua morta. Mas bem longe...
Não me vê, não me ouve, não me sente. Ama-me. Ama-me como se amam as flores e o vento e a chuva. Como se amam as manhãs de primavera que prometem dias felizes.
Como ama a poesia que me escreve todos os dias...
Ama-me. Só. Sempre.
E continua à minha espera.
Continua à espera que a vá buscar...
Sentou-se à janela e escreveu. “Adeus.”
E chorou. Chorou como quem chora uma vida. Chorou. Como sempre chorou por mim.
Mas morreu. Encontrei-a assim... Ainda à janela, uma madeixa de cabelo entrelaçada nos dedos, as (eternas) lágrimas iluminando os olhos (fechados...) e uma açucena ao peito.Ama-me. Muito. Mas morreu.

quarta-feira, dezembro 29, 2004

8. (sem titulo ainda)

Estes dias cinzentos, estes murmúrios do vento... como me magoa pensar nela, reve-la com toda a minha alma, tocar-lhe com a ponta dos meus dedos no ar. As folhas douradas, o cheiro ao chá de caramelo que beberrico aos pedacinhos. Não aguento estas recordações de felicidade, de dor, de amor, de tudo o que a vadia destruiu. De tudo o que eu não soube manter, meu amor, desculpa-me por isso...
***
Uma noite de sexo, amor, prazer. Uma mistura de desejo e sede de nos bebermos um ao outro. Lembro-me de ter pensado que talvez fosse a última, tendo em conta os constantes afastamentos dela. Estava enganado. Quando acordei na manhã seguinte ouvi o tilintar da água na banheira. Entrei em pânico com medo que o episódeo se repetisse. Ela, deitada no chão nranco, em transe, parada, sem falar, os cabelos enrodilhados, a pele fria, os olhos aterrorizados. O medo, sempre o medo, sempre ele que agora me atentava o dia-a-dia. Corri para a casa de banho. Não é que fosse muito longe do quarto, aliás, bastava sair e virar à direita (que saudades de a ver passear pela nossa casa), mas o caminho até lá pareceu-me interminável. Empurrei a porta devagar. E lá estava ela em pé, a cantarolar uma música qualquer. Lembro-me de ter ficado uns cinco minutos sentado à beira de porta a ouvir a melodia que entoava ao tiritar da água. O corpo dela na cortina meio translúcida. Ai, como eu me recordo tão bem disto! Como me lembro de a ouvir cantar, os movimentos do corpo dela, as curvas secretas que só eu conhecia (pensava eu!), a pele cujo cheiro e toque eram meus. Fui feliz naqueles cinco minutos. Ela não me viu.
Fugi da beira da porta da casa de banho onde ela cantava. "Vou fazer-lhe o pequeno almoço". Um croissant com manteiga e queijo e chá de caramelo quente. Quando terminei chamei-a. Ela vei-o, nem falou. Comeu, deu-me um beijo e foi embora. E eu, petrificado, nem consegui quebrar o silêncio da torrada a estalar na boca dela, dos goles grossos de chá que ela sorvia rápidamente.
***
A tarde ia já longa e escura. Decidi ir buscá-la ao emprego. Durante a tarde tinha estado a pensar na estranha mudança dela, na forma como me afastava, na forma estranha do amor que nutria por mim, em toda a minha alma guardada nas palmas das mãos dela. Eu sempre tive amigos influentes e tinha uns quantos que eram psicólogos, talvez estivesse aí a saída para o problema dela. Uma sala branca, uma pessoa desconhida e ela podia de certo dizer tudo o que não me poderia dizer. E era tanto o que ela me tinha para dizer, tantos os pecados imundos de prazer carnal, tantos os golfes frios na minha pele ardente de paixão.
Na avenida, sempre dourada, cheirava a castanhas assadas. Um homeme velho passeava-se sozinho por alí. E não é sem qualquer razão que eu retracto o velho da avenida. Ao ve-lo percorrer as ruas, tão sozinho e abandonado, revi-me nele. Sei lá, tive medo de um dia ser assim. Passar por mim o mundo inteiro sem ter mãos para o agarrar. Um monte de recordações guardadas que sou forçado a apagar. Um nome que perco para ninguém mais me chamar. Tive tanto medo de ficar assim. Sentado num banco castanho e frio sem ninguém para falar... Tive tanto medo de a perder.
Mesmo com o medo do velho da avenida encrustado na minha pele, não consegui ir ter com o senhor. É estranho quando sentimos receio e queremos ajudar alguém mas na realidade nem tentamos. Pensamos apenas "oh, da próxima vez eu ajudo, ele vai qui estar todos os dias!". Como nos iludimos a nós próprios, como somos fracos. E eu segui, sem falar com o pobre homem, em direcção ao clube de vídeo. Quando cheguei estava uma rapariga cheia de borbulhas ao balcão. "Não está. Sentiu-se mal.". Saí a correr, desvairado pelo meio das ruelas. Uma folha caíu-me na testa e começou a chover imenso, assim, de um momento para o outro. No Outono é mesmo assim, nunca se sabe o que vem a seguir.
(por terminar)

segunda-feira, setembro 06, 2004

7. Pequenas coisas


Novo emprego. O terceiro desde que o conhecera. Era num clube de vídeo perto de casa. Costumávamos lá ir alugar filmes que víamos juntos enquanto chovia lá fora. Lembro-me que lhe preparava chá de caramelo (será que ainda gosta?) e me deitava no colo dele o resto da tarde.
Naquela altura precisavam de colaboradores. Inscrevi-me e umas semanas depois fui chamada à experiência. Era bem mais complicado que as lojas onde tinha trabalhado. Exigia mais responsabilidade, mais concentração. Tinha medo de trocar as capas dos filmes, de pôr uma comédia no expositor da pornografia, a pornografia na prateleira dos filmes para crianças. Enfim... Muito em que pensar e pouca paciência. As pessoas que lá entravam eram bem diferentes das da loja de lingerie. Apesar do pouco movimento, havia mais diversidade... Gostei. Via pessoas diferentes, pessoas novas, sorriam-me mais vezes, eu própria esboçava um sorriso aquando do típico gostou-do-filme. De vez em quando até conversava sobre os filmes com os clientes.
Um dia ele foi-me buscar. Entrou e pediu um filme, comportando-se como se não me conhecesse, na brincadeira... Sinceramente não sei se na altura gostei muito da surpresa. Não andava bem; o caminho sozinha até casa ajudava-me a relaxar antes de o enfrentar, as ruas enfeitadas de folhas secas acalmavam-me. Tive medo que aquele episódio se tornasse uma rotina e se estragasse, como as fitas pedidas muitas vezes lá no clube. Era como se ele me quisesse roubar o pouco espaço que ainda era só meu. Mas não lhe disse nada. Saímos de mão dada, brincando como adolescentes na rua, saltitando por entre as folhas douradas de outono.
* * *

Não sei se gosto destas recordações que aquele tempo me traz. Das folhas que ainda hoje teimo em não pisar. Agora quero esquecer. Esquecer por um instante os cheiros, as cores, os sons que ainda trago tatuados na pele. Esquecer o sofrimento. O desespero que me consumiu.
Cheguei a ferir-me em verdadeiros actos de auto-flagelação, em tentativas vãs de me ver livre das marcas daquela noite. Tudo me levava àquele chão, àquele tapete, àqueles gritos.
Imaginei que os poderia arrancar de mim, como arranquei a pele marcada pelas unhas dela, como tantas vezes arranquei os cabelos agarrados como cordas em momentos de desespero.
Comecei a fartar-me dos beijos dele, dos abraços que me sufocavam. Estupidamente, queria tê-lo perto, mas não me queria aproximar. Deixei-o ir tomando conta de mim… das minhas roupas, das minhas coisas, do meu corpo… da minha vida.
É estranho como por vezes desistimos assim das pequenas coisas. Desistimos de escolher uma roupa bonita para ir para o trabalho, desistimos de escolher um perfume que condiga com o tempo que faz lá fora, desistimos dos jeitos que damos ao cabelo e que ninguém repara (só ele…). Acho que naquela altura foi o que se passou… desisti das coisas e de mim.
O espaço que me dedicava foi invadido por aquela presença estranha que me atormentava sem cerimónia. Nada que fizesse aliviava o nojo que sentia quando me olhava ao espelho, nua de qualquer réstia de amor próprio.
Quando me sinto assim fujo. Tento sair de mim, fugir da minha própria sombra… Naquela noite foi o que fiz. Farta de mim e dele, saí mais cedo do trabalho e fui para casa. Sabia que não iria encontrá-lo. Troquei de roupa e voltei a sair. Já nem sei para onde fui. Andei perdida na rua e na minha alma.
Chovia muito… não tinha guarda-chuva, não tinha casaco. Só depois percebi que tinha saído de casa com uma camisa dele vestida. Só. Não sei quanto tempo andei assim pela rua, descalça e a tremer. Cansada, sentei-me no chão, à beira da estrada e chorei. Lágrimas quentes, chuva fria, céu escuro, automóveis, semáforos, pessoas, olhos (tantos olhos…!), risos, palavras. Mas eu não ouvia nada. Era como se estivesse tudo mergulhado no mais profundo silêncio. É impressionante como os problemas nos toldam os pensamentos, nos fazem perder a razão ao ponto de abandonarmos o corpo assim, quase nu à beira da estrada. Só hoje sou capaz de me lembrar dos comentários que na altura não ouvi, das gargalhadas que afinal me eram dirigidas, dos esgares de reprovação.
E saída bem do fundo do vazio… uma mão. Era ele. Abraçou-me e (sempre em silêncio…) levou-me para casa.
Discutimos muito nessa noite.
Mal entrámos em casa começou a gritar comigo. Eu só conseguia chorar, não sei se de vergonha, se de medo da rejeição dele. Disse-me que tinha ficado preocupado, que tinha passado pelo clube e que lhe haviam dito que eu já tinha saído há muito tempo. Tinha ido buscar-me mais uma vez. Tal como eu temia. Hoje, pensando bem na situação, acho que ele não gostou de me ver assim seminua à beira da estrada...
Parei de chorar. Comecei a gritar ainda mais alto que ele. Ignorei o olha-os-vizinhos-sua-doida. Estava a tirar um prazer imenso naqueles gritos. Vê-lo assim entre o aterrorizado e o agressivo dava-me mais vontade de gritar. Estava descontrolada, não sabia bem o que dizia; quase lhe contei da noite com ela.
Quando já só os meus gritos selváticos ecoavam na sala, parei. Agarrou-me, quis abraçar-me, eu não queria. Gritei mais. Debati-me, tentei livrar-me daquele (mais um...) abraço, da força que ele fazia, das tentativas de não me deixar fugir… Bati-lhe, mordi-lhe os braços até sangrar, arranhei-o. Depois desisti de novo. Como-se-desiste-de-nós-e-das-pequenas-coisas. Tentar livrar-me dele era mais uma pequena-coisa. Porque ele estava disposto a envolver-me assim para sempre. Toda a noite. Toda a vida. Talvez toda a morte. Encolhi-me e chorei escondida no peito dele.
* * *

No dia seguinte acordámos tarde. Acho que era domingo, como hoje. Ele acordou primeiro. Deve ter ficado a observar-me durante algum tempo. Quando abri os olhos, os meus cruzaram-se com os dele. Tinha estado a chorar. Tenho a certeza. Aquele brilho estranho, os lábios húmidos, o rosto cansado. Odiei-me.
— Temos que falar.
— Bom dia.
— Ah… Desculpa. Bom dia. Dormiste bem?
— Diz o que tens para me dizer, tenho pressa.
— Mas hoje é domingo amor…
Amor. Amor. Amor. Sempre aquela palavra. Nunca gostei que me chamassem amor. Somos todos amores uns dos outros. Não há casal que não seja amor um do outro. Isso irrita-me. E quando o A cai milagrosamente? “Mor”. Pior ainda.
— Então diz.
— Tens que ir a um psicólogo.
Psicólogo?! Lembro-me de ter vontade de lhe bater como na véspera. Não tinha coragem de assumir aquela noite perante mim, iria fazê-lo com um estranho?
— Não quero. Não preciso.
— Vai ser bom para ti amor. Vá, não fiques assim... Só te quero ajudar.
— Queres ajudar mas não ajudas nada. Estou farta que te metas na minha vida. Queres café?
— Quero.
Nessa manhã já não falámos mais sobre a ida ao psicólogo.

sábado, setembro 04, 2004

6. Vidros que gemem


Apesar de ela nunca me falar no emprego, podia ver que não era um mundo de maravilhas. Quando chegava a casa, via-a sentada no sofá azul (lembro-me tantas vezes do nosso sofá) a olhar estática para a televisão, mais estática que as imagens do fim da emissão. Agarrava-a e deitava-a na cama. Abraçava-a e ia tomar um banho quente. Quando voltava já ela dormia. Encolhia-se no meio da cama, mesmo no centro, e aninhava-se nos lençois. Um beijo na testa, na boca não, tinha medo de a acordar. Afinal este era o seu primeiro trabalho, ela estava cansada e nada podia contra isso. Por vezes acordava-me a meio da noite. “Estou sem sono” e agarrava-me, abraçava-me e despia-me, uma raridade.
De manhã acordava mais cedo que eu. Preparava-se para ir embora e resmungava entre-dentes enquanto barrava a manteiga no croissant. Eu aproveitava o cheiro dela no meio dos lençois, deitava-me na almofada dela e dormitava mais um pouco, à espera que me viesse beijar. E ia embora, todos os dias, com o mesmo tédio pendurado nos olhos.

***


Chegou a casa naquele dia com a aparência debilitada. Parecia que os cabelos tinham baloiçado ao vento num parque qualquer no meio da avenida. Uma lágrima a escorrer-lhe na cara. Tornei-me redil em volta dela mas os meus braços não chegavam para deter o transbordar do terror que lhe percorria a pele. Os meus beijos não lhe secavam a cara. “Já passa, vai ficar tudo bem, meu amor.” E as lágrimas percorriam-me a pele em surdina, por detrás do cabelo dela. Peguei-lhe como se embalam os sonhos e deitei-me com ela nos braços a chorar de mansinho como a brisa a bater na janela. Sabia que a abraçava com tal força que mais um pouco e ela sufocava. Uma ventania soprava lá fora, os vidros não paravam de gemer.
Acordei com o som de àgua a correr, um gemido e um grito afogado pelas mãos. Corri até ela, deitada sobre a pedra branca, meio adormecida, meio em estado de choque. Entrei em pânico, não sabia... Não sabia o que fazer! Abracei-a como se abraçam os anjos, sem nunca realmente lhes tocar, e levei-a de volta para a cama. Não se mexeu, não me falou. Nos olhos transcreviam-se páginas de dor e de terror que ela nunca me contaria.
Fiquei sentado, ao lado dela, a chuva lá fora a entoar uma autêntica serenata junto ao vento. E então chorei. Chorei baixinho com o medo a decapitar-me a voz e, com a mão húmida, toquei-lhe nos cabelos escuros. Cheiravam a rosas e túlipas, cheiravam a amor e a saudade. Cheiravam à minha pele tão presa na dela.
Não tardou a acordar. Abriu os olhos e virou-se para mim. “Já passou, meu amor” e beijei-lhe a testa sem saber que mais fazer, era tão estranho o mundo dela. “Descança”, “Amo-te”. Percorreu-me um calafrio, ouvi-la dize-lo, saber que o sentia... “Também te amo” e abracei-a com a força da chuva lá fora a tocar a melodia dos dias cinzentos. Beijei-a. E fiquei assim, perdido no mundo dela, com o vento a gemer ao lado lado, as grossas gotas de chuvas a cantarem para nós.


***


Depois desse dia, nunca mais voltou à loja de lingirie naquele sítio desmazelado. Não gostei muito que voltasse à velha rotina do sem-nada-para-fazer mas pelo menos assim estava comigo a tempo inteiro. Não poderá isso ser considerado um emprego? Quase.
Passado pouco tempo (devia ser por peso de consciência), arranjou um novo emprego. Não gostei também. Afinal, agora pensando friamente no assunto, creio que não gostava de nada o que a afastasse de mim. Mas a verdade é que o clube de vídeo não me agradava muito. Muita gente a entrar, muita a sair. Não lho disse, apoei-a. Afinal de contas era isso que ela precisava, apoio, e isso ela tinha a 100%.
Um dia decidi ir buscá-la ao emprego. Ela estava sentada numa cadeira atrás de um balcão pequeno e enferrujado com a cabeça apoiada no braço a olhar para a televisão. Parecia que aquilo não era assim tão movimentado quanto isso. Olhou para mim e não esboçou um sorriso. Fui ao balcão. “Queria um filme muito, muito porco para ver com a minha mulher.” Ela sorriu, riu e deu uma gargalhada. Como eu me alimentei daquele sorriso! Era o sol dos dias cinzentos que se viviam. Abraçou-me com força e sussurrou-me ao ouvido. “Parece que só temos filmes amadores feitos em casa” e piscou-me o olho. Não acreditei. Sabia que era puro ímpeto, ela já não tinha vontade de estar comigo à noite, afastava-me. Inventava dores de cabeça (como se eu acreditasse), ou então, falava da menstruação avançada, que estupidez. Não acreditei, sabia que era apenas um jogo, estava feliz por me ter visto alí, surpresa, e eciciu seguir o meu jogo, apenas isso.
Peguei nela e viemos os dois para casa. Ao entrar na avenida o chão tornou-se dourado. Choviam folhas das árvores que dançavam ao vento. Ela não as queria pisar. Levou-me num jogo de criança, o “não pises as folhas douradas senão morres”. E então íamos aos saltos com as pessoas pasmas a reparar em nós: dois adultos a saltar de um lado para o outro numa barulheira enorme. O jogo era extremamente difícil. As folhas eram imensas e não tardavam a cair mais. Só não entendo por que me recordo tão bem deste momento... Afinal eramos somento nós a fugir das folhas bailarinas. Ah, eramos NÓS!

Quando a noite inundava o ar, ela aninhava-se na cama, bem longe de mim, num canto da cama, e fingia adormecer depressa. Tentei muitas vezes abraça-la mas ela afastava-se. Tentei muitas vezes beija-la, mas os beijos eram frios como o tempo lá fora. E era assim que as coisas avançavam. As vertigens e o sexo iam desaparecendo, os beijos esfriavam e os abraços eram muitas vezes evitados. Desculpas para um lado e para o outro. E, à noite, quando pensava que eu já estava a dormir, chorava de mansinho, tão de mansinho que se confundia com o vento a uivar. Queria tanto abraça-las, ser o seu porto seguro... Mas tinha medo. Sabia que fingiria, que mentiria. Não sabia o porquê das lágrimas dela, mas as minha tinham razão nas dela.


***


Uma manhã, cinzenta como as outras, acordei e decidi-me a falar com ela. “O que se passa?” Ela tornou-se meio violenta, olhou-me de cima a baixo. O coração começou cavalgar-me no peito, sei que de um momento para o outro iria ficar corado de raiva. Ou seria medo? Medo de a perder, com certeza. Não me respondeu, fugiu para o banho matinal.
Sentei-me no parapeito da janela a ver a chuva. As gotas grossas caiam e formavam possas lá ao fundo. Imaginei um “plim” para cada gota quando tocava o solo e a melodia que isso formaria. Parece que fiquei muito tempo naquele estado de transe no parapeito da janela porque quando voltei à realidade ela já estava por detrás de mim num abraço quente e sinuoso. Sorvi-lhe a paixão num beijo aceso, um beijo desejado há tanto tempo. Matei a saudade no peito dela, bebi-lhe da pele a seiva ardente e caimos na cama sem dar por isso. Os nossos pés tinham simplesmente levitado, só pode ter sido isso.
Beijou-me a pele núa e, como uma louca, percorreu-me com a língua. Parecia esfomeada, por isso deixei-me levar.


terça-feira, julho 27, 2004

5. A manhã seguinte


O dia amanheceu chuvoso.
Grossas gotas de chuva tocavam suaves melodias na janela.
Doía-me a cabeça, o corpo, o coração... doía-me o olhar ainda preso à imagem desconcertante do corpo dela sobre o meu.
Tudo o que acontecera chegava-me agora à memória em flashes rápidos, dolorosos. O telefonema, as minhas mãos no peito dela, toda ela em mim. Tinha nojo de mim mesma e daquela mulher que me violara a razão. Corri para a casa-de-banho a soluçar. Precisava de me lavar da sujidade daquela noite... Não fui capaz. A água que me molhava fazia-me lembrar a língua dela humedecendo o meu corpo. O vapor lembrava-me a sua respiração ofegante enquanto me amava.
Gritei até não poder mais, mas nem assim consegui silenciar as palavras soltas que me ensurdeciam ao ritmo da água que me queimava. Gritei mais e mais... gritei tanto até me doer a alma. Depois deixei-me escorrer com a água. Oxalá pudesse desaparecer pelo ralo também... Não sei quanto tempo fiquei ali assim. Lembro-me que tremia muito. A água ainda corria quente... tão quente que me ardia na pele. Mas tinha muito frio. Abracei os joelhos e chorei até adormecer. E a água corria, corria...
Acordei já de volta à cama. Ele amparava-me, carinhoso. "Já passou, meu amor". (Que desespero... estava apenas a começar!...) Quis contar-lhe tudo, explicar-lhe que nada mudara, que tudo não passara de um ímpeto, que... que... "Vá, descansa". E beijou-me a testa.
Naquele momento senti que lhe depositava nas mãos a minha vida. Que lhe confiava a minha alma. O cheiro dele atordoava-me. A pele arrepiava-me. Amava-o tanto...! Cobardia a minha nunca lho ter dito. Quando o senti assim, tão perto, tão "parte de mim" consegui. "Amo-te". "Também te amo". E encontrava nestas palavras o que mantinha viva...
Envolvemo-nos num abraço tão eterno, tão cheio de vida e de entrega, que desejei morrer-lhe nos braços. Não conseguia imaginar maior plenitude que a de ser uma estrela abraçada por um pedaço de céu... Quis guardar aquele momento para sempre, agarrar-me a ele quando me faltasse o chão, lembrar-me daquele cheiro no meu corpo, os lábios dele nos meus, os olhos verdes transbordando amor...
Ainda hoje me lembro da melodia cadenciada da chuva na janela.


* * *


Nesse dia não fui trabalhar. Não queria ser alvo da luxúria do meu chefe e estremecia só de pensar em ver aquela mulher de novo. Queria poder ficar para sempre aninhada nos braços dele. Ali nada nem ninguém me podia chegar. Nem o tempo. Naquele abraço, estava a redenção do pecado das nossas noites sujas, dos nossos gemidos, dos gritos, das feridas que fazíamos, loucos de prazer, um ao outro. Aquele abraço era a brisa divina que acompanhava o cântigo celestial da janela.
Ficámos assim, enquanto a chuva molhava o tempo lá fora.


* * *


Depois daquela manhã de revelação, nunca mais voltei à loja. Inventei uma gravidez e consegui ser despedida imediatamente e sem mais explicações.
Sei que embora não gostasse de me ver trabalhar ali, não gostou que tivesse voltado à rotina de sempre. Mas o tens-que-fazer-alguma-coisa-da-vida não voltou pela boca dele. Ecoava sim, mas na minha consciência, quase tão irritantemente como quando ele mo dizia.
Quis ser capaz de sair de casa, procurar um emprego melhor, ser respeitada. No fundo, sentia necessidade que ele me aprovasse... Às vezes até pensava que ele me tinha como uma prostituta. Afinal, era ele que me sustentava e eu em troca só tinha sexo para lhe oferecer... Não. Ele nunca pensaria isso de mim.
E pensar que aquele homem já me tinha enojado. Agora a ideia de não o ter comigo agoniava-me. Sentia um vazio que me preenchia e despia em simultâneo.
Aos poucos, fui esquecendo a noite com aquela mulher. Jurei que nunca mais a veria. Ele não saberia de nada... Nem tinha como saber, apesar de estranhar a minha súbita indisposição quando subtilmente começava a acariciar-me. Percebendo-o já excitado, inventava uma dor de cabeça, uma menstruação adiantada. Como entretanto voltara a trabalhar noutra loja, o o-dia-foi-cansativo acabava sempre por levar a melhor. Apesar de o desejar cada vez mais, tinha medo de voltar a sentir nojo. Não sei se dele, se de mim. Evitei-o ainda muitas noites.
Não o queria perder, mas a ideia de ser tocada de novo assustava-me tanto, que nada me excitava. Não sei se ele alguma vez me chegou a perceber as lágrimas... Nem sei se se apercebeu que os nossos beijos esfriavam, a sede amainava, o abraço já não era tão intenso. Até o peito quente lhe gelara.
E todas as noites enquanto ele dormia, chorava como uma criança, tal era o medo de ficar sem ele.
A nossa eternidade parecia ter fim.

segunda-feira, julho 26, 2004

4. Um bar rotineiro


Empurrei a porta do bar como todos os dias no final da tarde. Estava cheio, mais cheio que o costume e eu estava sozinho, mais que o costume também. Porque se pode estar mais sozinho quando nada nos corre bem. O dia pesava-me nos olhos, só queria algo doce para beber, pagar para esquecer o dia inteiro e adormecer com um sorriso estúpido na cara, o mesmo de todas as noites, a velha rotina. “Dá-me algo forte, não quero o mesmo de ontem!” Chegou uma mistela azul num copo alto, pouco gelo, sempre tive os dentes muito sensíveis. Um trago e já se me aqueciam as entranhas, como era bom sentir que me estava a queimar, ou simplesmente sentir. Era tão bom...Fiquei sentado naqueles bancos altos junto ao balcão a olhar para um quadro mal pintado, provavelmente uma imitação bem melhor do que o quadro originalmente horrivel, não se via nada, mas as cores faziam-se amigas da minha visão esturpida. Um pontapé na porta, ou algo muito forte... era ela. Vinha com um ar de quem nada tem para fazer e então morre entediada. Como eu gostei do olhar de nojo com que percorreu as paredes sujas daquele bar rotineiro de bairro. Era diferente. Parecia ingénua. Avançou e foi para uma mesa no canto mais profundo da sala, tirou uma revista e começou a ler. Nem reparou no meu olhar perdido naquele corpo vagabundo. Mais um trago, e outro e outro... Estava quente aquela sala. Ela estava já com um copo de água na mesa. Um copo de água?! Quem bebe água num bar? Nem uma garrafa pediu, era um copo de água da torneira. Sorri e dei uma gargalhada estúpida. Ainda pensei que finalmente fosse reparar em mim, mas nem levantou os olhos da revista. Devia ser uma daquelas dirigida especialmente a mulheres mal-amadas, com aqueles diários de pessoas que nem sexo sabem fazer, que estupidez. Uma parvoeira pegada. Outro trago da bebida azulada. Já me sabia mal, mas fazia-me entrar em transe na pele dela. Senti-me enfeitiçado. A bebida já me fazia suar, não sei o que o gajo do bar lhe pôs mas tive uma repentina vontade de vomitar. Comecei aos arrotos e aí olhou para mim, já eu me estava a dirigir à mesa dela. A azia avançava de um modo anormal, estava já a queimar-me o esófago mas não podia deixar passar a oportunidade de a ouvir falar e olhar para mim. Afinal ainda nem sabia a cor dos seus olhos. Quando trocámos o sabor dos olhares entediados, parecia que lhe ia vomitar em cima. Soltei um grunhido, algo do tipo “oi”, nem me lembro bem o que disse. Ela estava totalmente escandalizada, sentei-me de repente ao lado dela. Só fui capaz daquele grunhido. Mais nada. Suava por todos os poros, estava nojento. Ela só dizia coisas estúpidas, tal como eu, seguindo-se uma parvoeira a uma estupidez. Cheguei a pensar que a água era vodka mas quando dei por mim a beijá-la não sabia a álcool. O meu bafo, esse tresandava! Fomos para minha casa, eu guiei, não tinha bebido muito, só estava com uma azia dos diabos. Chegámos e nem deu tempo para abrir a porta do carro. Agarrou-me a zona interna da perna na procura de uma  barra de ferro. Ela estava lá, dura, à espera. Não era ingénua afinal, era tudo fachada para me corromper os olhos.Subimos as escadas. Parecia levitar com tanto prazer, as minhas mãos nos seios dela, que loucura! Fizemos sexo. Os nossos corpos morriam nas mãos do prazer carnal. Cavalgou-me como uma louca e com tanta sede obrigou-me a repetir a dose. Os meus olhos iam-se perdendo no olhar cor de mel que me comia por dentro e por fora. As minhas mãos tentavam guardar um pouco do cheiro dela para sempre. “Já tinha saudades tuas.”  “Nunca me tinhas visto!” E veio o último orgasmo para ambos. Um delírio de prazer, uma alucinação, uma luz naquele sorriso, um toque meu no naquele corpo perfumado...


* * *

Acordei antes dela e fui beber água. Estava com uma sede dos diabos. Aquela noite tinha-me deixado sem fôlego. Quase temia a sede dela. Quando acordasse quereria mais, com certeza. Mas não. Acordou. Não me disse nada. “Bom dia, fofinha!” Nem uma palavra, só um sorriso amarelo. Vestiu-se, não me beijou e deixou o número dela em cima da cama. A porta bateu e eu fiquei perdido. Passei o dia a pensar se devia ou não ligar-lhe de volta, tinha medo que ela nem atendesse, a cara dela quando se tinha ido embora era de profunda satisfação. Talvez fosse uma simples prostituta e eu um homem sortudo. Liguei no final do dia, não fui ao bar de sempre nessa tarde. “Volta”. Desliguei. Não sabia o que dizer. E como me senti estúpido por aquela simples palavra! Não podia ter perguntado se ela estava bem? Que parvo. Estava tão assustado. Sentia falta do sorriso dela, da pele, dos olhos, da sede, da vertigem dos nossos beijos. Nessa noite, esperei sentado na sala a ver um daqueles programas “faça você mesmo” e só pensava em como a fazer minha. Tocaram à porta. Era ela. Trazia um beijo enrolado ao pescoço. O ritual repetiu-se. Os mesmos gemidos, as mesmas vertigens, a mesma loucura. Eu só pensava em possui-la por completo, não por uma noite, mas para o resto dos nossos dias cinzentos. “Fica comigo”, e o silêncio aniquilador de qualquer conversa furtiva. “Amo-te. Amas-me?” E ela ia embora. Sempre.

* * *
Todas as noites pareciam iguais. Ela aparecia sempre com o mesmo ar de gata esfomeada, com o mesmo brilho cintilante no olhar devorador. Eu estava já nu, com o tempo fui aprendendo que era mais fácil do que a obrigar a despir-me. Nunca gostei de me despir, prefiro que me dispam com beijos. Ela aparecia sempre com roupas mínimas. Rasgava-lhe as roupas e o corpo. E devorava-lhe a pele... A pele que nunca sabia minha. Estava sempre distante dos meus beijos doces, mas o sexo era sempre bom. Só faltava o seu amor, “faltava pouco”. Um berro, gemidos intermináveis, os orgasmos, o contorcer da perna dela e o morder do lábio inferior, o mesmo de sempre. E então fechava as mãos à volta do peito dela, num abraço apertado para não a deixar fugir mais. Os meus sussurros nas orelhas, o nosso olhar trocado em surdina, a minha respiração sôfrega...Um dia pareceu mudar. “Acho que estou apaixonada”. E eu sustentei todo o seu mundo.

* * *
Não fazia nada da vida, aquela miúda que me assombrava os dias para se tornar carne durante as noites. “Precisas fazer alguma coisa por ti!” E ela um dia foi. Disse-me por telefone que tinha arranjado um trabalho num loja de lingerie num centro comercial daqueles rascos. Não achei nada bem. Mas ela aceitou o emprego e começou no mesmo dia. Nunca queria falar sobre o dia na loja, limitava-se a cruzar pensamentos dela com os meus. Os “hoje estou muito cansada” tornaram-se autênticas pragas para os nossos gemidos. Menos vertigens, menos sede, menos sorrisos para guardar no céu. Era uma autêntica praga.

3. O primeiro encontro


Conhecemo-nos num bar. Ele estava sozinho. Bebia uma bebida azul num copo alto (nunca soube os nomes dessas bebidas estranhas que fazem sede…) Eu também estava sozinha. “Mulher que se preze não vai a bares sozinha”, já dizia a minha mãe. Que se lixe. Bom, eu bebia água (sempre fui muito indecisa quanto a cores e sabores; a água pareceu-me uma boa opção). O ordinário aproximou-se da minha mesa, sentou-se sem pedir licença e bateu uma ali mesmo a olhar para mim. Não vi, mas deduzi pelas expressões de prazer que fazia. Suava, vomitava suspiros longos, balbuciava palavras imperceptíveis. Tive vontade de me ir embora dali. Nojento. Duas horas depois fazíamos amor. Quando acabámos, obriguei-o a repetir. Naquela noite devo ter tido uns 50 orgasmos. Fingi 20. Quando amanheceu, nem sabia onde estava. Acho que estávamos em casa dele, pelo à vontade com que se passeava nu. Voltei a sentir nojo. Na altura nem soube explicar porquê. Dei-lhe o meu número de telefone mesmo sabendo que não ia ligar, vesti-me e saí. A verdade é que ele ligou. Ia jurar que me ia dizer foste-uma-bela-foda. Ainda não lhe tinha ouvido a voz. Só aquela respiração ofegante que me excitava. "Volta". E desligou. Nessa noite voltámos a fazer amor. Nessa e durante muitas outras.

* * *

Tens que fazer alguma coisa da vida. Estou bem assim. Não, não estás.
Sempre odiei que me dissesse o que tinha que fazer. Por mim continuava sempre calado como na primeira vez. O que me prendia a ele era o sexo. Quando vinha com a treta do amo-te-também-me-amas, saía e só voltava ao anoitecer. E ele já estava nu, cosido à cama, à minha espera. Fazíamos amor e adormecíamos. O outro dia era exactamente igual. Mas houve um que não foi. Houve um dia em que o amo-te-também-me-amas fez sentido.


* * *

“Fazer alguma coisa da vida”. Fui procurar emprego só para não o ouvir repetir todos os dias a mesma ladainha.
Foi numa loja de lingerie num centro comercial de bairro. O ordenado era mau. O patrão pior. Claro que aceito. Quando começo? (Qualquer emprego era melhor que ser sustentada por um homem).
Chegava à loja, dobrava a roupa, levava com a pila tesa do chefe quando acidentalmente se roçava em mim. Outro nojento.
Mas mais nojentas eram as mulheres que lá entravam. Não compravam nada e uma vez ou outra roubavam peças. Elas que levassem. Nunca me importei muito. Abria um botão da blusa e o chefe calava-se.
Mas um dia entrou uma diferente… Peito firme, nádegas perfeitas. Linda. Bom dia, posso ajudá-la. Não, obrigada. Estou só a ver. (A conversa era sempre a mesma…) A ver estava também o chefe, que revirava os olhos de maneira estranha… nem quis ver onde tinha as mãos.
No dia seguinte ela voltou… e no outro, e no outro…
Num desses não-estou-só-a-ver tive a certeza que me sorriu de maneira diferente. Saiu. Ao fim do dia, quando dobrava peças de roupa interior, encontrei um número de telefone escrito nas costas de um bilhete de cinema. Era dela.
Hesitei em ligar. Avabei por inventar que a loja estava a fazer um inquérito às clientes e tive a minha oportunidade de ouro. Claro que ela não acreditou, mas embarcou na minha deixa e horas depois estava com ela.
Saiu do quarto com o pretexto de um copo de água porque-não-se-pode-com-o-calor e voltou quase nua. Os seios saltavam-lhe do soutien de uma maneira que me encantava… sei lá, como palavras de um dicionário… A pele rosada, macia como algodão doce. Os cabelos loiros como fios de sol…
Eu levava uma mala cheia de peças da loja para compor o cenário que tinha inventado à laia de desculpa. Vamos experimentar? E começámos a despir-nos.
Não sei bem o que se passou depois… lembro-me de ter os seios dela nas minhas mãos; talvez estivesse a sondar se caberiam no soutien que apertava ansiosa. Estava excitada e isso incomodava-me.
Deitou-se no tapete. Queres? E eu pensava no inevitável quero-o-quê. Comecei a perceber tudo e, num misto de terror e prazer, anuí.
Dei por mim sob aquele corpo divino que me amava e explorava como nenhum homem o fizera. A língua dela escorria-me pelo corpo, enquanto os dedos me penetravam. Magoava-me. Gritava. Ela continuava. Sob os nossos corpos, o tapete já estava ensopado de sangue. Perdi os sentidos.

2. O crime perfeito


O platonismo é uma das mais belas formas que o amor assume.
É belo na dor da distância do inatingível, mas mais belo ainda na sua pureza, na sua ausência de pecado.
É amar um ponto de luz perdido no céu. É sentir o teu cheiro na brisa. É ouvir palavras tuas nunca proferidas, trazidas pelo vento. É brotar de terra infértil. É uma réstia de vida no reino dos mortos. É tocar-te nas flores. Sentir arrepios pela tua presença ausente.
E foi quando o ponto de luz passou a carne e sangue que toda a sua beleza sucumbiu. Caiu por terra.
Foi na noite em que o Inferno me ofereceu o teu corpo quente, sujo de sexo e de paixão e de desejo, que este amor virou heresia.
Foi essa dádiva de pecado que corrompeu o meu platonismo.
Que me fez assassinar o mundo.
Que me fez morrer e continuar a amar-te.
E quantas vezes já me perguntei por que foste escolhido para a carne que destruiu o meu platonismo...
Quantas vezes me perguntei o porquê deste sentimento que trago comigo… Quantas vezes tive o papel da confusão nesta minha peça? Quantas vezes fui eu própria questão sem resposta?
Quantas!?
E cada vez que tento lavar a alma das nódoas que me foste deixando, o meu sangue ferve tanto de paixão que me queima a pele e escorre como uma cascata...
E à beleza da água associa-se então o terror do sangue quente que me queima e morre num charco sujo sob os meus pés. E a dor sai de mim e segue o sangue que o meu corpo rejeita. E é nessa plenitude que nasce a resposta que procuro. É nesse estado de alma, é nessa paixão sem heresia, que do meu peito voam pombas brancas, que da minha boca saem notas musicais, que dos meus olhos sai... amor.
Mas tu nunca me compreendeste... Nunca soubeste sentir como eu, descortinar o meu amor por trás do sexo que fazíamos como loucos.
Por isso vou tentando esquecer um pouco o tormento que tem sido trazer-te nos braços com tanto cuidado, com medo de te acordar desse sono calmo, dessa respiração profunda. Não vás tu saber dos meus crimes horrendos. De como mato um pouquinho de mim (ou de ti...?) todas as noites.
Esta é mais uma. Debruçada na janela, olhar pregado no céu. A noite está escura. Linda. E cheira tão bem…
Paredes brancas à minha volta. Paredes de um branco irritante…De uma brancura falsa. Tão falsa como o amor que dizias sentir. Falsa porque sobre elas jazem todos os meus segredos. Toda a sujidade que lhes prego. Toda a mágoa que sai de mim e se lhes cola pastosa. E ainda assim, lá estão elas. Brancas. Ridículas.
Mas hoje quero pintá-las com sangue. Com o meu sangue. Vão ficar bem mais verdadeiras. Porque é no meu sangue que flutua o que tenho de pior. É no meu sangue que a dor se espraia. É no meu sangue que está a podridão de um sentimento que se arrasta. Moribundo. Sem vida. (E eu bem procurei uma poção que lha devolvesse. Carne que o alimentasse.) Não posso ver aquela parede alva sem ter esta vontade assustadora de arrancar pedaços de mim. Da minha própria carne. Da tua? Da dela?

E caminho pela casa no escuro. E nos cantos vejo-me caída. Morta. Ensanguentada. As paredes já estão como eu quero. Bem sujas. Bem verdadeiras. E em cada pedaço de mim espalhado pelo chão, estão cravadas as palavras que não me soubeste dizer e que de tanto as sonhar fiz nascer secretamente dentro de mim. Mas tu não podes saber… Senão vais querê-las de volta. Vais arrancar-mas. E eu não vou aguentar… Estou tão fraca…
Muito sangue.
Não houve testemunhas. A noite estava escura. Não havia lua. Não havia estrelas. Tu não viste nada. Dormias profundamente dentro de mim. E eu, absorta a velar-te o sono, nem vi quando peguei nas tuas mãos adormecidas e me cortei aos pedaços.
Sangue e lágrimas. Dor e paixão.
O peito rasgado. As mãos sujas de sangue. O coração encolhido, atirado para o chão.
Tentativa desesperada de te arrancar daqui.
Amanhã quando acordar, as paredes vão estar imaculadas. E eu não vou estar morta. Espalhada pelos cantos. Foi o crime perfeito.

Até um dia, algures na eternidade, meu amor...

1. Desculpa-me


Não há nada aqui, meu amor. Nada que nos prove, nada que nos incrimine os actos sagrentos de amor e paixão... Nem uma simples fotografia... Nada que nos possa prender, nada que nos possa guiar, nada para nos afogar ou fazer respirar. E estou confuso.
Aqui, sentado no canto do meu quarto de sombras pintado, choro as estrelas que se apagam. Correm pérolas preciosas pelo meu lânguido rosto (medo de não te ter). Agarra-as por favor, agarra as pérolas com as palmas das tuas mãos, lava-me com o teu corpo! Leva de mim tudo... ou o nada em que me vou tornando... Mas leva-me! A parede já está quente, o frio foi embora numa rajada de vento que me passou ao ouvido (seria um murmúrio teu?) e aqueceu-me todo o ar que me está agora a fazer delirar. O vermelho toma conta das sombras. Oh, é sangue! Não sei se é o meu, se é do dela... e se... Oh, eu quero-te a ti... Leva-me daqui, tira-me do inferno de sangue, leva-me para o meio das flores, para o centro das tuas estrelas, agarra-me de lá, não me largues! Medo...!
É dele, agora já sei, a culpa é dele! Vem devagar. Primeiro transforma-se na alegria de um beijo apaixonado. E como os nossos beijos eram apaixonados, lentos, demorados, rasgados em cada pedaço para poderem ser saboreados... Devia ser assim? Parece que nos beijávamos mais com medo do depois. (Terei os teus lábios na minha testa quando morrer?) Não quero morrer... Medo... é como se chama. E vem devagarinho, apodera-se das entranhas entrelaçadas no mais fundo de mim, bem no fundo para eu não reparar e então esconde-se. Mas começa a subir, faz a corda pelas lágrimas que me escorrem no canto do quarto pintado com o sangue das sombras transformadas e sobe, devagar, tal ladrão à espera de te roubar de mim. E vem assim, pé ante pé para que eu não o veja subir e deixar marcar em todo o meu corpo (ou serão os cortes das lágrimas mais quentes?). Oh, como ele é perfeito na sua jogada, nem se mascara muito, sabes? Sobe apenas devagar sem reparar nas passadas inquietas bem ao meu lado. Nunca lhe vi a cor, quando me aparece pela frente já estou com a lente das lágrimas, aquela lente que faz ver o mundo mais imperfeito, fica tudo tão desaparecido... Veio agora mesmo fazer troça de mim. Caiu-me no colo com a cara de gozo treinada para me fazer triste. Posso jurar que é azulado, mas não sei, está tudo tão desaparecido. Pára, por favor... Medo... Tanto medo, ele está aqui, pânico, medo... Quero-te!...
E h
oje sou eu que me corto em pedaços, porque tenho medo de não te ter por completo, apenas porque nunca te sei no meu olhar.
Desculpa, não posso continuar enganado seguindo cada passo teu de longe, acompanhando o teu rastejar longo e sombrio pelos mundos inquietos que não compreendo. Que mundo foi esse que te prendeu longe de mim? Não me amavas os sussurros nas noites das janelas embaciadas pelo nosso odor quente? Onde foste?... Quero-te aqui, não a ela, nada dela, não quero nada dela! Nunca te entendi, compreendo isso agora, debaixo desta chuva que me encandeia os olhos. Não entendi o teu amor, rejeitei o teu sexo, a tua estranha forma de amar e olha que eu tentei. Corri em ruelas pequenas e fechadas, em reuniões, na busca da compreensão. Meu amor. Onde foi que te perdi?...
Agora n
ada mais nos pode incriminar os actos sangrentos, nada senão o nosso amor, senão os nossos beijos, os nossos corpos cintilantes a voarem na cama em que me deleito todas as noites. Custa o teu cheiro na almofada que agarravas quando eu ia embora ou que tantas vezes babavas depois do orgasmo. Era aí que eu mais te amava, na rodilha dos teus cabelos, na tua boca aberta quando gritavas de prazer, a mesma boca aberta quando estavas prestes a adormecer ou a pedir por mais de mim, sempre a sede do nosso amor... Tenho sede. Sede do beijo que deixaste pendurado na porta do quarto só para me fazer sofrer mais um pouco. Não o consigo apanhar.
Estou perdido... Quero-te! Bastas tu, meu amor. Só o teu sorriso no meu redil de estrelas...
Ou o sangue do nosso amor entranhado na minha pele. Sim... basta-me o teu sangue para me reencontrar.

Eternamente teu, meu amor...